sexta-feira, 29 de junho de 2012

Maratona de Rosário e o Índice para Boston

Quando escolhi correr Rosário não tinha noção que esta prova iria entrar para a história, que seria em terras Argentinas o cenário propício para eu obter o melhor resultado da minha vida. Só posso resumir esta viagem numa palavra: Perfeição.

A primeira vez que li sobre esta prova foi na na ContraRelógio e uma frase me chamou a atenção, "você conhece Argentina ou somente Buenos Aires?" e posso dizer que eles estavam com razão. Para todos que eu contava que ia correr em Rosário, a pergunta era sempre a mesma, "fica aonde?" ou então "Você vai correr em Buenos Aires?" e indo para esta cidade acrescento mais uma informação, Buenos Aires é uma cidade para turista brasileiro, quer conhecer realmente a Argentina vá para Rosário, Mendonza ou qualquer outra cidade.

A cidade 
Rosário é uma das cidades mais importantes da Argentina e da América do Sul. Localizada na província de Santa Fé, a 300 km da capital, Buenos Aires, Rosário chama atenção por suas belezas naturais e por sua rica cultura, como espetáculos de dança, música, peças de teatro e etc.

Monumento de La Bandera
Foi em Rosário, em fevereiro de 1824, que a bandeira da Argentina foi erguida pela primeira vez, pelo General Manuel Belgrano. Rosário é um município com excelentes opções de hospedagem, várias opções gastronômicas, museus, teatros e praças. Às margens do Rio Paraná, essa linda cidade da província de Santa Fé, conta com as Ilhas do Alto Delta que lhe dão um ar litorâneo.

Margens do Rio Paraná - Parque España
Rosário além de suas belezas, é um importante pólo de produção da Argentina e da América do Sul, se destacando ultimamente pela produção de recursos tecnológicos. Por possuir uma economia forte e importante na Argentina, Rosário é uma cidade que recebe muitos eventos e congressos, contribuindo assim cada vez mais para seu crescimento.
(fonte: http://www.rosarioargentina.com.br/ )

Por não receberem quase turistas brasileiros, eles não aceitam real, não falam "portunhol", mas são extremamente simpáticos e atenciosos para tentar te ajudar, bem diferente de Buenos de Aires. O que é claro não te livra de alguns embaraços linguísticos (só quem viajou para um país estranho sabe o que é isso, né Bessa????)

Outra coisa que chamou a atenção é que não trabalham com cartão, tudo lá, principalmente restaurante é pago em dinheiro (peso).

A viagem

Não existe vôo direto do Brasil, ou você vai via Gol com escala em Porto Alegre ou vai de Aerolineas Argentina com escala em Buenos Aires. Nos dois casos será necessário uma espera significativa.

O aeroporto é bem pequeno quase de cidade do interior e foi preciso esperar quase uns 15 minutos por um táxi (sim, não existe fila de táxi esperando na porta, pois o aeroporto fica numa outra cidade formada praticamente por condomínios fechados, muitos utilizados apenas nos finais de semana)


A véspera e a retirada do kit

 Chegamos em Buenos Aires na sexta-feira a noite e no sábado foi dia de retirar o kit. No local de retirada do kit, apesar de não muito grande conseguiram montar uma pequena feira. Como cheguei tarde, havia uma fila grande para retirar o kit, mas a educação dos atletas me surpreendeu. Não havia baias ou corredores para orientar a fila, mas cada pessoa que chegava via onde era o final e aguardava lá até chegar sua vez, sem tentar furar a fila. Não sei ao certo, mas devo ter levado uns 40 a 50 minutos para pegar o kit, sem atropelo e sem stress. O kit era simples formado basicamente pela camiseta, numero do peito, pulseira de largada e chip.

Com o kit na mãoera hora de ir almoçar, descansar, arrumar as coisas para o dia seguinte e jantar, não necessariamente nesta ordem.

Kit separado

A prova
Por ser uma região com baixas temperaturas (de 8ºC a 15ºC), e amanhecer tardio (o amanhecer acontece por volta das 7:00) a largada é dada as 9:00. Com isso, foi possível acordar as 7:00, tomar café com calma e ir trotando para a largada (o hotel ficava a menos de 1km do hotel).

A largada acabou atrasando 5 minutos e iniciou após uma contagem regressiva animada. Haviam muitas pessoas assistindo a largada e a presença do público foi uma constante em quase todo o percurso, Rosário realmente parou para assistir a prova.


Só que desta vez eu não estava correndo sozinha, o destino resolveu me dar uma ajudinha de última hora e para esta prova tive o privilegio de ter o suporte de um coelho pra lá de muito especial, o Nelton. O plano original era que ele iria correr os últimos 12km comigo, mas na hora ele resolveu iniciar a prova comigo e fazer os primeiros 2km (que no final acabaram sendo 3km).

No primeiro posto de hidratação uma surpresa, não havia copinho fechado e sim copo térmico grande de água, tentei beber e consegui no máximo um gole apenas. Aquilo me preocupou, pois com posto de hidratação de 5 em 5km e aquela quantidade restrita de água eu podia ter problemas de desidratação. Um pouco antes de me deixar o Nelton me perguntou qual era o ponto de hidratação importante para mim e eu disse o 15º km. Ele me disse para não me preocupar e que ele iria me esperar lá.

Segui sozinha mantendo o ritmo e passei os primeiros 5km com um pace medio de 5:10, só que num posto de hidratação proximo ao km8 eu vi que estavam distribuindo garrafas e tentei pegar uma ao invés do copo e quase fiz um strike me chocando com um staff. Peguei a garrafa enquanto o staff gritava "Vamo, Vamo, Vamo!" , mas perdi alguns segundos preciosos. Daí decidi correr segurando a garrafa a fim de garantir hidratação pelos proximos 2 km.

Só que entre o km 5 e 10 eu tive uma queda de ritmo e acabei fechando os 10km com ritmo 5:15. A partir daí acabou o aquecimento e sabia que precisava acelerar, comecei a forçar o ritmo e subi para 5:05/5:10.

Próximo ao km 15 encontrei o Nelton me esperando com uma garrafa de água, me hidratei novamente e segui forçando o ritmo. Este foi o melhor momento da prova e pude baixar o ritmo médio para proximo dos 5:12.

No km 20 encontrei com o Nelton novamente e seguimos juntos até o km 22, passando a metade da prova com cerca de 1h50. Neste momento eu vi que o marcador de ritmo dos 3h40 estava exatamente atrás de mim, junto com um pelotão enorme de corredores e a partir daí começou o meu inferno. Eu acelerava para deixá-los para trás e ele me seguiam. Olhava para o relógio e via que meu ritmo medio estava abaixo de 5:10 e pensava "caramba, este caras estão acima do ritmo, se continuarem assim vão terminar antes de 3h40".

No km 24 tinha um posto de powerade, mas não consegui pegar garrafa apenas o copo, tentei beber mas sem chance, joguei tudo fora. Um pouco mais na frente um corredor paraguaio me ofereceu a garrafa dele, consegui beber um pouco, agradeci e devolvi a ele que repassou para outros atletas. Daí eu entendi a solidariedade deles. Quem pegava garrafa e não bebia tudo, fechava e deixava em pé no meio da rua para o próximo corredor pegar. É realmente uma solidariedade que não vemos por aqui.

Bem segui em frente tentando me livrar do pelotão, mas lá pelo km 26 resolvi fazer minha prova e deixar eles prá lá pois sabia que se tentasse ficar na frente deles ia quebrar, visto que o ritmo estava alucinante. Só que eles me passaram e não abriram e um cara de bicicleta, provavelmente o pacer de algum atleta ficou entre mim o pelotão simplesmente me atrapalhando.

Fiquei nesta situação por um tempo até que o cara da bike conseguiu me irritar profundamente, daí resolvi acelerar ultrapassar todo mundo ir para o outro lado da rua e abrir uma certa distância. Isso funcionou por um tempo, pois meu ritmo caiu e perto do 29km eles me ultrapassaram e abriram uns 20m.

Com um pouco mais de 30km encontrei com o Nelton, que me esperava com um powerade e começamos o caminho para a casa. Logo em seguida teve uma subida, acelerei, passei o pelotão e abri. Perto do 32km a visão do paredão era incrível, havia muita gente quebrando e começamos a ultrapassar um a um.

No km 35 comecei a sentir as dores do acúmulo de lactato, mantive a concentração das passadas e segui em frente, no km 37 as dores melhoraram. Quando passamos pelo km 38 o Nelton me disse "sabe qual é a distância até Boston? São menos de 25 minutos" era hora de seguir em frente.

Mas a corrida me reservava uma surpresinha de última hora, perto do km 40 eu cansei e comecei a me sentir mal, parecia que ia desmaiar, pedi para o Nelton não me deixar, tomei metade do último gel e fiz um acordo com o meu corpo, "quanto mais cedo terminar a prova, mais cedo você irá descansar". O Nelton me perguntou o tempo da prova e vi que era possível um sub 3:40.

Então vi que o percurso mudava e em vez de seguir pelo túnel, íamos pegar uma verdadeira descida. Comecei a descer meio que controlada, mas na metade vi a placa do km 41 e resolvi acelerar. Depois da ladeira seguimos pela rua rumo ao pórtico de chegada, as pessoas gritavam e aplaudiam e era como se me empurrasse. Fiz o último km mais alucinante da minha vida chegando no final a um ritmo de 4:12.

Quando cruzei a linha de chegada, o relógio mostrava 3:39:38, não só tinha conseguido índice para Boston como tinha diminuído 5 minutos do tempo necessário. Eu era uma sub 3:40. Chorei de soluçar abraçada ao Nelton, eu tinha conseguido, 2 anos de treinos duros me levaram até aquele momento e sim eu era uma vencedora.

Quero agradecer a todos que durante estes 2 anos acompanharam minha saga, me deram força e de certa forma sofreram comigo. Vocês tiveram um papel importante nesta conquista, pois o carinho que recebi aqui foi fundamental para enfrentar todas as dificuldades.

Agora posso dizer que a distância entre sonho e realidade são 42.195m


Olha o sorriso de felicidade

Mais pose para foto
 
Nelton e eu


A medalha

11 comentários:

  1. Beleza! Sensacional!! Prova interessante, rápida, se estiver com a musculatura da coxa em dia é ótima, por causa das descidas. E vc estava!! Mas agora tem um outro desafio: se inscrever pra Boston e tirar a por... do visto americano, se vc não tem!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nishi, a descida não desgasta tanto assim. É uma prova maravilhosa para quem quer PR, o único porém é estar preparado para hidratação a cada 5km e saber tomar água naqueles copinhos abertos, de resto é diversão. Eu não tirei o visto ainda, vou esperar a inscrição, pois com a confirmação é mais fácil.

      Excluir
  2. Faltou dizer 3 coisas: 1) Foi um baita aprendizado pra mim, proto-estreante de maratonas, correr os 20 Km, sendo os 12km ultimos, com você. Disciplina, ritmo e concentração, sobretudo quando viu aquela quantidade enorme de pessoas quebrando a partir do 34º Km. Deu pra ver o tamanho da pedreira; 2) Que seu blog seja um sucesso, mas que meu coach não saiba que eu corri 20km ao todo, afinal, o combinado era só 12km finais. Pressinto formigas no meu gatorade. De novo; 3) Todas as fotos, menos a que estou, são créditos meus.

    ResponderExcluir
  3. pa-ra-béns!!!
    você arrasou, Yeda!

    conquistou seu sonho, e de uma maneira linda, guerreira, decidida, forte!
    batalhou muito por cada minuto, e conseguiu!

    seu relato ficou lindo, emocionante!
    a gente corre com você, levada por cada palavra!

    lindo seu exemplo!
    exemplo de que com esforço, vontade, trabalho, disciplina, a gente alarga as fronteiras de nossos limites!

    parabéns!!!

    ah, que é esse pacotinho aí do lado do gel, na foto dos preparativos pra maratona? :)

    beijão!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Elis, Obrigada. Você faz parte do grupo dos amigos que estiveram ao meu lado. Parte desta conquista é sua também.

      O pacotinho é o meu segredo para performance.. rs rs rs brincadeirinha... É Beta Alanina, ornitargin e cápsula de sal. Os dois primeiros ajudam a retardar fadiga muscular.

      Excluir
  4. Parabéns, Boston se aproxima.

    ResponderExcluir
  5. Yeda,
    Parabéns! Estava ansioso para acompanhar seu post e confirmar se você tinha conseguido. Fico muito feliz! Acompanhei aqui pelo blog sua "saga" para conseguir o índice e a decepção no ano passado. Foi tudo aprendizado! tudo tem mais valor quando é mais difícil.
    Boston te aguarda! depois conta tudo para a gente!
    bjs
    Sergio
    corredorfeliz.blogspot.com

    ResponderExcluir
  6. Oi Yeda! Esperei até hoje para lhe dar os parabéns porque queria saber, também eu, qual é o gostinho de terminar uma maratona (claro, nem em um zilhão de anos eu faria isto em menos de 4 horas! Você não existe!).
    Parabéns, menina!
    Depois que corri no Rio, entendi como é duro correr 42km. Fazer isto no tempo que você fez então! É o máximo!
    Compreendo agora o quanto de sacrifício, dedicação determinação você precisou ter para alcançar este tempo.
    Você está de parabéns - MESMO!
    Manda bala! Continue firme ai nos treinos para Boston (êta nome esquisito!) que estamos aqui, na torcida por você.
    Sucesso sempre!

    ResponderExcluir
  7. Parabéns, Yeda!!
    Seu relato transborda emoção e felicidade. Que prova mais linda!!
    Curta esta fase pós-maratona com muita intensidade. Tu mereces.
    Um beijo,
    Helena
    correndodebemcomavida.blogspot.com

    ResponderExcluir
  8. Sensacional Yeda! Com certeza você sentiu uma emoção fantástica! Parabéns! Gerrit

    ResponderExcluir